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Diapausa
Independente de sermos criadores de killies, ou seja lá de qual peixe ou animal, em uma coisa temos que concordar: Existem alguns fenômenos na natureza que são extremamente interessantes e por vezes nos mostram a grande capacidade adaptativa dela, das formas mais criativas e maravilhosas possíveis.

Neste contexto a diapausa é um deles.

Mas antes de tentarmos falar um pouco aqui sobre ela, vamos explicar de forma sucinta porque às vezes ela se faz necessária.

Vou citar aqui como exemplo os killifishes, atualmente os peixes que mantenho. Não querendo me aprofundar muito nesse assunto (killies) vamos aqui aceitar que esses peixes são divididos em dois grandes grupos por sua característica de postura e reprodução, a saber : os anuais e os não anuais.

Nos anuais todo o processo de reprodução depende principalmente de fatores como época e clima.

Todo este processo deverá ocorrer entre um período de grandes chuvas e outro, ou seja, os peixes nascem, crescem, cruzam e põe ovos enquanto a poça na qual se encontram tem água. Com a seca dessa poça, lógico, os peixes morrem e seus ovos só irão eclodir na próxima temporada de chuvas.


E é exatamente ai que ocorre a necessidade da diapausa.


Nota: Quer saber um pouco mais sobre esse ciclo de killies anuais? Clica aqui 

Nosso killi anual botou lá seus ovos no fundo da poça e essa secou. Dependendo da região onde ocorreu outras chuvas suficientes para encher e manter cheia novamente a poça podem demorar quatro, cinco até seis meses. Assim, como ficariam esses ovos? Manter-se gerando normalmente (evoluindo) por todo esse período seria impossível já que eclodiriam antes de estarem novamente em água. Entra aí a natureza, com toda a sua absoluta sapiência. Centenas de anos de evolução e esses ovos além de desenvolverem uma casca (córion) forte e adaptada o suficiente para suportar pressões e grandes períodos de seca, adquiriram a capacidade de entrar em diapausa.

São postos, iniciam os primeiros estágios de embrionagem e praticamente param! Entram num estágio de quase letargia que só é quebrado, com a presença de água. Simples e belo!

Bom vamos então à diapausa.

Se formos ver o significado do termo diapausa no dicionário acharemos algo parecido com:
sf (gr diápausis) Biol 1 Período de dormência espontânea, independente das condições do ambiente, com interrupção das atividades de desenvolvimento, num embrião, larva ou pupa, ou com suspensão da atividade reprodutiva em um inseto adulto. Ocorre comumente durante a hibernação ou a estivação. 2 Período de dormência análoga entre dois períodos de atividade em outras formas.

A diapausa, assim, pode ser entendida como a quase interrupção do metabolismo e/ou desenvolvimento por um determinado período até que as condições externas sejam novamente favoráveis ao retorno das suas atividades.

Vale salientar aqui que a dita diapausa na verdade é formada por o que poderemos entender como um conjunto de três “diapausas distintas” entre si, conhecidas como diapausa 1, diapausa 2 e diapausa 3.

Antes de irmos além, devemos saber o porquê de serem três “fases” distintas formando esse conjunto chamado diapausa. E aqui outra mostra indiscutível da enorme sabedoria da natureza.

Suponhamos que um casal de killies qualquer põe e fertiliza seus ovos no fundo de uma poça. Seria de se esperar que se todos eles começassem a diapausa exatamente no mesmo tempo e pela lógica assim que as condições fossem favoráveis iriam eclodir ao mesmo tempo, certo ? Sim.

Mas suponhamos que essas condições favoráveis, não sejam assim lá tão favoráveis.

Imaginem uma poça seca lá na África setentrional debaixo de um Sol de 40 graus. De repente, devido a uma dessas viradas climáticas, recebe uma chuva forte, enche, e lá vão os ovos eclodirem. Fazem isso e três ou quatro dias depois devido à volta do calor escaldante, a poça está de novo seca. Pronto. Perdeu-se a cria e perdeu-se a nova geração que iria perpetuar aquela espécie ali.

Pois é ai que entra a sabedoria da natureza que citei ali em cima. A diapausa “dividida” em três diapausas diferentes. Inicia sim ao mesmo tempo em todos os ovos mas acaba em fases diferentes em cada um. O que teremos com isso? Uns ovos mais desenvolvidos que outros e no caso da chuva rápida, passageira e enganosa, vão nascer os mais desenvolvidos, mas não todos. Uns ainda vão se manter em desenvolvimento e quando secar a poça novamente... outra diapausa!
Simples e muitíssimo bem bolado não?

Nota 1: Isso explica o porquê quando criadores molham uma turfa de killies; depois de nascerem alguns, se secarem essa turfa e após algum tempo molharem de novo, nasce mais e se repetirem isso e de novo nascem outros, etc.

Nota 2: Estudos recentes começam a aceitar um número maior de “fases” para a diapausa, fala-se no meio acadêmico em seis ou sete.

Aqui, sem entrarmos a fundo na questão; até por que não sou biólogo e não tenho capacidade para aprofundar mais o assunto, nem mesmo sendo esta a nossa intenção, vamos descrever de forma bem simples cada um das três fases citadas acima.

Assim que o ovo é fertilizado ele inicia um processo de desenvolvimento ou embrionamento, como queiram.

Diapausa 1: Ocorre logo no início quando esta havendo ainda a expansão celular, no que chamam de período pré embrionário.


Diapausa 2:
Ocorre quando o já embrião tiver formado a espinha dorsal, o coração e os intestinos.


Diapausa 3:
Acontece quando o embrião está totalmente desenvolvido. Este entra numa espécie de suspensão, permanecendo assim até o momento da eclosão. É nesta fase que os criadores costumam enxergar, não raro nitidamente, dentro do ovo um halo amarelado em volta dos olhos dos embriões que os salientam bastante.


Como mencionei acima essa é uma explicação (ou tentativa de...) bem simples e curta desse interessantíssimo fenômeno chamado de diapausa. Existem vários e vários estudos ainda em andamento sobre o assunto e a cada dia que passa mais descobre-se sobre ele.

Como exemplo, os cientistas de várias partes do mundo tentam atualmente definir fatores desencadeantes tanto para o início como para o final da diapausa de killies e outros animais (insetos na grande maioria) que a usam.

Fala-se de umidade, pressão barométrica, condutividade do meio, variação de coluna d’água, tensão dos gases, temperatura média, etc. Todos esses fatores tem indiscutível participação no fenômeno e mostram a nós, meros mortais, o quão complexo ele é.

Simples de se entender como uma muito boa solução evolutiva, mas difícil de ser totalmente explicada. Coisas da natureza.

Abraços povo.

Referências:
1) Alternative developmental pathways associated with diapause regulated by temperature and maternal influences in embryos of the annual killifish Austrofundulus limnaeus
2) Survival of water stress in annual fish embryos: dehydration avoidance and egg envelope amyloid fibers
3) Killifish: champion anoxia survivors
4) Association Killiphile Francophone de Belgique (l’élevage des killis)

Fotos:

Imagens cedidas gentilmente por J. E. Podrabsky

 


Autor: Magro Costa (05/12/2011)
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