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Tamanho é Documento Sim!

Muitos aquaristas já se depararam com um problema grave em seus aquários, um inconveniente que além de triste pode ser muito frustrante: predações inesperadas e comportamentos introvertidos. E é agora que a questão do tamanho dos exemplares fica evidente... Grandes com pequenos, faz muita diferença sim!

Quando se define a população de um aquário, além de fatores como parâmetros químicos compatíveis, tamanho do tanque e sociabilidade da fauna escolhida, devemos observar seu comportamento de forma muito mais específica e singular: algumas vezes a docilidade de determinadas espécies pode resultar em combinações perigosas. Mortes repentinas, desaparecimentos misteriosos, peixes com ferimentos (nadadeiras roídas, escamas faltando, etc.), sem nenhum suspeito aparente podem ser problemas comuns quando misturamos em um mesmo tanque animais grandes com outros muito pequenos.

É bom tentarmos manter em mente a ideia de que os peixes (um dos organismos mais antigos do planeta Terra) possuem dois evidentes instintos primários: a alimentação e a perpetuação da própria espécie, o primeiro ainda mais forte que o segundo. Eles comem ou tentarão comer praticamente qualquer coisa que couber em suas bocas, independentemente de sua dieta ou de suas tendências alimentares (algumas espécies devoram animais do mesmo tamanho ou até maiores). Isso acontece provavelmente porque não estão acostumados à oferta diária e abundante de alimento, então o que aparece não deve ser desperdiçado.

Para melhor exemplificar, usarei três problemas envolvendo peixes muito populares: Kinguios (Carassius auratus), Óscars (Astronotus ocellatus) e Acarás-bandeira (Pterophyllum sp., geralmente P. scalare).

1) Kinguio: primeiramente, ele é um peixe onívoro, com tendência à herbivoria. É um peixe dócil, pacífico e muito popular. Mas é um peixe que atinge grandes proporções e é essa mistura de informações mal-interpretadas que levam o aquarista a erros potencialmente fatais. Sabendo que é um peixe muito calmo, o hobbysta vai à loja e compra paulistinhas, tanictis, limpa-vidros, neons, lebistes, foguinhos, cobrinhas-kuhlis e demais peixinhos pequenos. Por que não, afinal? Kinguios são peixes pacíficos e não vão fazer mal algum a ninguém. Logo, uni-los não seria uma ideia ruim, não é? Ledo engano.

De repente, após alguns dias, os peixinhos pequenos começam a desaparecer, um ou outro. Sem entender o aquarista procura pelo corpo em algum lugar, no meio das plantas, no filtro ou até mesmo no chão (afinal, peixes às vezes saltam para fora d'água). Porém, ao prestar atenção no seu peixinho-dourado, percebe a ponta do que seria uma nadadeira ou uma cabeça em sua boca. A pessoa fica perplexa: por que ele foi devorado? Por que o Kinguio o comeu se é um peixe tão tranquilo?

Como dito antes, é instintivo que o peixe tente comer qualquer coisa que caiba em sua boca, seja um floco de ração, seja uma minhoca ou até mesmo um companheiro do aquário. E é isso que devemos pensar e planejar antes de adquirirmos as espécies que vamos criar. Misturar peixes grandes com peixes muito pequenos (o suficiente para caber em suas bocas) pode não ser a melhor das ideias. Não que seja impossível de se acontecer, até pode haver uma convivência tranquila. Mas inevitavelmente você estará correndo o risco de chegar um dia, e ao observar seu aquário, perceber que um peixe está faltando.

Pode acontecer e dar muito certo, claro. Essas informações são frutos da minha observação pessoal e de leituras, não representam nenhuma verdade absoluta. Já vi essas misturam em aquários que deram certo - mas imagine como deve ser triste encontrar um kinguio morto, engasgado com um limpa-vidro, por exemplo...

2) Óscar: então, perigo em dobro, infelizmente. É frequente o relato triste de pessoas que se depararam com seus ciclídeos engasgados, já agonizando em um dos cantos do aquário, sem muito o que fazer. Principalmente com peixes dos gêneros Otocinclus, Parotocinclus, Corydoras e demais cascudos (Hypostomus, Plecostomus, Ancistrus entre muitos outros, quando pequenos). Pessoas misturam essas peixes na esperança de que convivam pacificamente, mas o óscar, eventualmente, tentará predá-los, mesmo que tenham sido criados ainda muito juvenis. Com esses ciclídeos de grande porte, o máximo aconselhável de habitantes como companheiros são aqueles já grandes, como tamboatás e cascudos adultos.

Em casos assim, os dois peixes tendem a morrer, pois os peixes-gato costumam possui os primeiros raios (raios duros) das nadadeiras muito rígidos, especialmente as dorsais, peitorais e ventrais. Esses espinhos acabam funcionando como "gancho", prendendo-os na boca do óscar (ou outro ciclídeo de grande porte): o peixe não é nem engolido e nem "cuspido" para fora. Quando algo assim ocorrer, o aquarista deve como medida emergencial tentar retirar o peixe da boca do outro, usando uma pinça, sempre de forma delicada para não causar muitos ferimentos, mas mesmo assim os resultados são tendem a ser desanimadores.

3) Acarás-bandeiras: mais populares e problemáticos dentro desse contexto, com muitas discussões em volta da relação dessa espécie com os neons-cardinais (Paracheirodon axeroldi) e demais tetras de pequeno porte. É de se esperar que haverá pelo menos a tentativa por parte do bandeira de predar os pequeninos cardinais. O mesmo vale para outros peixinhos diminutos. Eles podem viver tranquilamente juntos, com sorte, e se forem muito bem alimentados esses incidentes tendem a diminuir... Mas vale à pena arriscar?

O tamanho importa até mesmo quando falamos de peixes pequenos com outros também considerados pequenos. Um exemplo disso é de um peixe muito popular, o tetra-preto (Gymnocorymbus ternetzi), um peixinho de médio/grande porte (comparando-os com os demais tetras), atingindo uma média de 6cm. Ele é tranquilo e pacífico, mas é um peixe voraz, capaz de devorar peixes muito pequenos ou juvenis como neons-verdes, foguinhos, amapaensis, guppys, platys, molinésias, etc. E é frequente vermos aquários com tais misturas.

O segundo ponto importantíssimo além da predação, é o comportamento dos peixes de diferentes tamanhos. Muitas vezes a simples presença de um peixe maior pode intimidar os menores. Mesmo que tal indivíduo maior seja pacífico e de boca pequena, sem risco de predação, ele pode amedrontar os demais, intimidando-os. Peixes sob tais condições tendem a adotar uma postura defensiva e tímida, numa situação estressante e contínua.

O resultado dessa intimidação involuntária pode variar de espécie para espécie: uma pode simplesmente se afastar quando o peixe maior passe; outra pode ficar mais escondida entre a decoração; ou então pode ficar permanentemente escondido; alguns até podem parar de come, etc. Quando isso acontece, o aquarista perde muito: não pode apreciar o comportamento natural da espécie amedrontada e corre o risco dela adoecer, caso pare de se alimentar (desta forma o animal vai enfraquecendo aos poucos, dando espaço para as doenças oportunistas). Sendo mais otimista, talvez o peixe não adoeça, mas pode não se desenvolver plenamente como o faria sob outro contexto. Uma alternativa para se resolver ou amenizar o problema é, se o aquário comportar, garantir um bom número dos peixes pequenos, quanto mais, melhor (dentro, claro, da capacidade de cada tanque). Quando em cardume numeroso, os peixes mudam totalmente de comportamento, tornando-se mais confiantes e menos tímidos, às vezes ignorando a presença de animais maiores.

Vejam o exemplo desse aquário com piranhas-vermelhas (Pygocentrus nattereri) e cardinais:

Reparem que por estar em um cardume gigantesco (comparado com aquários comuns) os cardinais ignoram a presença das piranhas. Se estivessem em número pequeno, os Neons não chegariam nem perto delas.

Dois outros vídeos com qualidade melhor mostrando situações semelhantes.




Porém, devemos nos ater ao fato de que a possibilidade de predação/intimidação não significa necessariamente uma constante, pois vemos muitos aquários bem montados com esses peixes coabitando pacificamente, sem maiores consequências (o vídeo acima é uma prova disso). O que devemos ter em mente é que é um risco que corremos ao misturar peixes de tamanhos tão distintos e que nem sempre pacifismo representa segurança para nossos peixes.

Não podemos esquecer que ao arriscarmos unir peixes de tamanhos muito distintos, assumimos a responsabilidade por qualquer incidente à curto, médio e longo prazo. E é sempre muito fácil arriscarmos, afinal quem paga não somos nós, são os peixes...

Até a próxima, pessoal.


Autor: Mateus Camboim (06/09/2016)
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