ENTREVISTAS AQUAFLUX
Entrevista com Daniel Alves


Aquaflux: Daniel, quando você começou aquarismo? Como foi o seu primeiro aquário?
Daniel Alves: Peguei o embalo da minha mãe que sempre foi fascinada por aquários e chegou a ter uma bateria em casa, mas na época ainda era aquele conhecimento arcaico e os aquários eram caixas de vidro com 1.988.099.077.878.098 peixes dentro... filtro caixa (aquelas caixinhas de acrílico com perlon, tocadas por barulhentos compressores de ar), coisas assim. Não ouvíamos falar sobre parâmetros como pH, GH, etc. Devido a isso, não havia critérios para colocar peixes de necessidades compatíveis, nem período de maturação bacteriana, nem nada. Era um caos...

Eu também vivia catando Guppies selvagens no rio Orfanato, que passa numa rua atrás da casa onde eu morava, e de onde invariavelmente eu era tirado pelo meu tio na base do tapa. Com razão, porque aquilo era (e ainda é) mais um valão a céu aberto do que um rio.

Aqui em casa éramos assinantes da revista VIDA - um guia de auto-suficiência, veiculada em meados da década de 80 e que saía em fascículos semanais. De vez em quando vinha, nessa revista, uma matéria ensinando algo sobre aquarismo. Foi a partir daí que eu comecei a ter algumas noções básicas, como pH, filtragem e etc. Lia também folhas soltas de um livro todo despencado do saudoso Gastão Botelho.

Lembro que uma vez eu, lá pelo fim da da década de 80, coloquei numa bacia da minha mãe de uns 4 litros uns 6 Guppys, uns Otos, dois Kinguios, uns Matogrossos, dois Dojôs e um Oscar pequeno, todos comprados na feira. Foi o primeiro "aquário" propriamente meu. O resultado não poderia ter sido outro:

Otocinclus: foram os primeiros a morrer.

Dojôs: saltaram para a liberdade (ou para a morte, deu no mesmo).

Kinguios: não sobreviveram ao segundo dia.

Guppys: foram obviamente devorados pelo Oscar, que depois tentou imitar os Dojôs e conseguiu.

Sobraram só os Mato-grossos. Mas por poucas semanas.


Aquaflux: Quem foi o cabra safado que te apelidou de "dadivoso"?
Daniel Alves: Foi um fiadamãe criador de tilápia. Brincadeira, foi o Bruno Isaías... Bom, então foi sim um fiadamãe criador de tilápia!


Aquaflux:
 O aquarismo e a capoeira são suas grandes paixões, se tivesse que escolher por apenas um hobby em definitivo, qual seria?
Daniel Alves: Peraí, minha grande paixão é minha família, depois vem o resto. Agora, entre aquarismo e capoeira... Putz, que maldade essa pergunta... Durante toda a minha vida eu tive aquário, e desde os 12 ou 13 anos eu vinha conciliando isso com outro hobby, que também era o meu esporte favorito (aliás, o único que eu praticava), a capoeira. Fui instrutor durante 10 anos, até que em 2007 sofri uma lesão bastante grave no joelho esquerdo, o que me forçou a parar. Foi a partir dessa época que eu, em casa e sem ter o que fazer, comecei a visitar fóruns e comunidades sobre aquarismo no Orkut, conhecer todo mundo que eu conheço hoje, e isso fortaleceu o vício.

Então, acredito que, se fosse antes do acidente, eu certamente não trocaria a capoeira por meus aquários. Hoje em dia, a coisa muda. Mas não desisti, espero ainda um dia poder voltar. E mantendo meus aquários em casa! Quem sabe...


Aquaflux:
 Você, além de aquarista, trabalha em uma petshop. Nessa posição você tem uma visão que falta a muitos lojistas. Então, você já se recusou a vender um peixe porque percebeu que o cliente não tinha condições (condições mínimas de acomodação, inexperiência e/ou irresponsabilidade) de mantê-lo? Se sim, qual a reação do cliente?
Daniel Alves: Puuuuuuutz!!! Muitas vezes me recusei! Todo dia chega gente lá que acabou de montar um aquário de 10 litros e quer encher de Carpas, Kinguios e Neons. Isso é fato. Até quem é cliente e costuma frequentar lojas cansa de presenciar essa situação, não é? Como aquarista, eu fico indignado quando vejo isso. Então, tento de todas as formas possíveis conscientizar o cliente de que, no caso, Carpas e Kinguios de forma alguma poderiam ficar naquele aquário, Neons precisariam de um volume maior de água, explico todo o conceito de maturação bacteriana antes de colocar peixes, parâmetros de água, etc. Na maioria das vezes, o cliente fica meio frustrado inicialmente, mas segue os conselhos e no final, vendo que a coisa funciona, volta pra mostrar fotos de como o aquário está, dos peixes que levou, e tal. Isso é gratificante.

Por outro lado, também aparece todo dia cliente que não está nem aí para o bem-estar dos peixes, vendo-os como meros instrumentos decorativos e substituíveis. Esses, após ouvirem todo o meu blá-blá-blá, simplesmente falam "Ah, bobagem, sempre tive peixe, nunca fiz nada disso e eles não morriam", ou então "Ah, vou levar assim mesmo. Se morrer, morreu".

Aí eu tento agir sob algum critério: se, por exemplo, o cliente quer misturar Espada com Neon, eu faço questão de frisar que procurei orientar e que de forma alguma a escolha feita pelo cliente seria aconselhável, vou lá muito P... da vida e pego os peixes para o imbecil cidadão... Ou quando a coisa é muito absurda, tipo Kinguios para aquário de 15 litros, eu simplesmente me recuso a vender. Falo que seria antiético. Pronto, a pessoa ou sai dali batendo o pé, ou faz reclamação a meu respeito, ou escolhe outro peixe compatível. Pode até depois sair dali, ir na loja da esquina e comprar o Kinguio lá, mas eu fiquei com a consciência tranquila por não ter sido "cúmplice de peixicídio"...

Já escutei mais de uma vez a seguinte frase de cliente: "Pô, você está aqui para vender ou para não deixar vender?" Aí eu digo que estou ali para orientá-lo a fazer o que considero certo. Vender é consequência.


Aquaflux: O que você mais vê de erros nos clientes de lojas de aquarismo?
Daniel Alves: Cara, o que eu percebo, pelo menos na área, é um desinteresse quase que generalizado por procurar saber o que é necessário para o bem-estar dos peixes e de todo o aquário. 90% das pessoas que chegam à loja não tem noção nenhuma sobre período de maturação bacteriana (desculpem, me recuso a falar "ciclagem"). Posso exemplificar isso com as frases que mais escuto na loja?

- Moço, esses peixes todos dá pra misturar?

- Posso colocar esse gordinho (Kinguio) com esse brilhosinho (Neon)?

- Olha só, quero pôr no meu aquário um peixe de cada cor. Pega pra mim um azul, um verde, vermelho, um amarelo...

- Moço, eu quero um peixe que não morre fácil (nesse caso mostro um peixe de plástico da Boyu pra ela: - Toma, leva esse aqui, então.

- Nossa, como você faz pra lavar esses aquários todos? O meu já me dá um trabalho enorme...

E os clássicos: - Ah, vou levar assim mesmo, se morrer, morreu... e - Ah, mas aqui você tem um monte de peixes no aquário, porque lá no meu eu não posso ter também? - apontando para os aquários de bateria...

Coisas assim.


Aquaflux: Você tem uma esposa que curte aquarismo tanto quanto você. O que você acha de ser um felizardo em ter uma família que adora aquarismo?
Daniel Alves: O que eu acho? Acho que ganhei na loteria, kkk... Nos conhecemos através do hobby. Vejo a galera reclamando da esposa que implica, arruma briga por causa dos aquários, etc... Pô, aqui a briga não é sobre montar mais um aquário ou não... a briga é sobre qual aquário vamos montar! É ou não é o sonho de qualquer aquarista?


Aquaflux: Foi o hobby em comum que uniu vocês ou foi coincidência? Como se conheceram?
Daniel Alves: Não foi coincidência não! Foi o seguinte: a Cris era (ainda é) dona de uma comunidade no Orkut (sim, acessávamos o Orkut naquela época) chamada Dúvidas de Aquarismo. Durante muito tempo eu bati ponto nessa comunidade e certo dia postei um tutorial de uma armadilha para larvas de mosquito um tanto diferente dessa que costumamos ver por aí. Ela fez um comentário nada sutil sobre o meu tutorial ser um vetor de dengue. Começamos a papear, um dia... dois... três... Depois de um tempo ela ligou pra mim, depois eu liguei pra ela, e ficamos nessa até começarmos a nos visitar nos finais-de-semana... Ah, esqueci de falar que até o momento ela morava em São Paulo e eu aqui no Rio, né?

Pois bem, passado algum tempo percebemos que essa ponte aérea nos fins de semana levaria ambos à falência e resolvemos morar juntos logo de uma vez. Aluguei uma casa, ela trouxe a escova de dentes e o aquário para cá... e agora, dois anos depois, ela me deu um presentão: o Gabriel, um moleque sorridente, brincalhão e danadinho.


Aquaflux:
 Qual dos dois é mais meticuloso com os aquários, você ou ela?
Daniel Alves: Ela, sem sombra de dúvida. Lá em casa eu faço o "serviço pesado": efetuo TPA, monto prateleira, sistema de filtragem, carrego peso, kkk... Ela fica com a parte de cuidados, alimentação, reprodução, etc. Ela também monta os layouts. Outro dia mesmo cheguei em casa e me deparei com um aquário (que até de manhã era um fish-only todo largado) remontado com um layout em ilha fantástico. Ou seja, em casa quem cuida dos aquários é ela. E faz isso cozinhando, lavando, passando, arrumando a casa e cuidando do bebê! É incrível!


Aquaflux: Quem gasta mais com os aquários, você ou sua mulher?
Daniel Alves: Olha, antes era ela. Eu sempre fui adepto do FVM (faça você mesmo), então nunca fui de gastar muito com aquarismo. Porém, como hoje em dia eu posso comprar diretamente de importadora/distribuidora, prefiro adquirir produtos industrializados, que não me saem caros (até mesmo porque não me sobra mais tempo para FVM's). Daí, como eu compro diretamente, acaba que o nosso gasto com o hobby não é grande. Isso é bom, porque viver de aluguel aqui no RJ não está fácil...


Aquaflux: Quando e/ou como foi seu primeiro contato com camarões?
Daniel Alves: Bom, eu sempre morei na Praça Seca, em Jacarepaguá, e aqui aos domingos rola uma feira que tinha barraca de peixe onde às vezes apareciam à venda alguns camarões. Minha mãe não deixava eu comprar porque dizia que camarão comia peixe à noite. Um dia, por teimosia, comprei alguns. Realmente, eles fizeram a limpa no aquário e morreram poucas semanas depois, certamente por má qualidade da água. De outra vez, adquiri camarões que ficaram no meu aquário por um bom tempo e não sumiu nenhum peixe. Acredito terem sido Fantasmas, ou talvez Potimirins. Mas isso deve ter sido uns vinte anos atrás, eu nem sabia que existia Fantasma, Potimirim, nem nada. Pra mim era tudo Pitu.

Quando conheci a Cris e, consequentemente, os Red Cherries, comecei a me interessar pelos nanicos, azucrinar a Cris com perguntas, ler, me aprofundar sobre o assunto. Depois que ela me mandou os primeiros casais de Red Cherries, o vício tomou conta. Hoje em dia eu compartilho o vício em camarões com outro vício, o dos Killifishes.


Aquaflux: Por que peixes e camarões? No que eles te atraem?
Daniel Alves: Sei lá, acredito que seja a tranquilidade que um aquário bem montado transmite. Sempre gostei de chegar em casa e ficar curtindo os aquários, é desestressante. Gosto dos camarões e dos Killies por eles serem ramos do hobby que fogem um pouco ao "tradicional".


Aquaflux: Além dos camarões e Killifishes, de que "ramo" do aquarismo gosta?
Daniel Alves: Outros aquários que gosto muito são os plantados estilo Nature, os de Jumbos, os de Discos e os Reefs. Me amarro num lago bem montado também. Mas esses são projetos futuros.


Aquaflux: Quantos aquários você mantém hoje e como é a manutenção dos seus camarões?
Daniel Alves: No momento tenho em casa cerca de vinte aquários: dois plantados low-tech, dois aquários de camarões, um musgário, e os restantes são os da bateria de Killies.

Pretendo ainda esse ano montar mais dois aquários de camarões e um nano plantado. Mas estou esbarrando em um problema: está começando a faltar espaço na casa, kkk...

A manutenção dos camarões é a Cris quem tem feito, mas basicamente é TPA semanal de 50%, alimentação com rações específicas de marcas variadas e spirulina.


Aquaflux: Como você vê a evolução do aquarismo em nosso país e o que você acha que deve ser feito para que este fascinante hobby seja levado mais a sério?
Daniel Alves: Ouço e leio gente falando que somos muito atrasados em relação a outros países e tal. Em parte eu concordo, mas posso falar numa boa? Nós temos evoluído muito! O aquarismo no Brasil está crescendo exponencialmente. Cada vez mais gente está se apaixonando pelo hobby e cada aquário montado atrai mais dois ou três entusiastas. Prova desse crescimento é o surgimento de uma quantidade cada vez maior de fóruns, blogs e sites de aquaristas, assim como a procura cada vez maior nas lojas.

Apesar das empresas fabricantes de produtos e rações estarem ainda engatinhando no que diz respeito às grandes e ótimas multinacionais, hoje temos empresas com produtos que estão à altura de produtos semelhantes das melhores marcas estrangeiras. Alguns até melhores. A tendência é a qualidade crescer mais e mais rápido. Até algumas empresas que até pouco tempo fabricavam produtos "meia-boca" estão tentando melhorar.

Já no que diz respeito a peixes, a coisa muda de figura. As leis brasileiras vigentes sobre a aquicultura ornamental e a coleta de peixes para fins ornamentais são uma piada de péssimo gosto. Hoje nós temos entidades e associações de aquaristas, aquicultores, distribuidores e lojistas empenhando-se para mudar essa situação. Um exemplo é o CEA - AQUORIO, aqui do Rio de Janeiro, que vem fazendo um trabalho bem forte em cima disso. Mas acredito que haja uma jornada longa pela frente para que o cenário mude significativamente. É uma luta para bem mais de 15 rounds...


Aquaflux: Qual seria o aquário que você sonha em ter um dia?
Daniel Alves: Tenho três sonhos: um mais antigo, que é montar um reef. Porém no momento eu não disponho de espaço disponível e, principalmente, de conhecimento agregado suficiente para montar o reef que eu quero. Tenho estudado, planejado, analisando algumas possibilidades. Sem pressa, uma hora a coisa vai.

Outro sonho não tão antigo é montar um aquário de camarões Black King Kong (Black Shadows). Fiquei fascinado com esses carinhas assim que vi a foto de um pela primeira vez. Cheguei a sondar a possibilidade de trazê-los do Japão, mas quase caí pra trás quando vi o preço (na época, mais de 800 doletas cada nanico). Esse, só em sonho mesmo...

Outro sonho é o Hypancistrus zebra (sim, aquele que é proibido pelo IBAMA, mas curiosamente nos é oferecido por criadores europeus a 300 libras cada). Esse peixe se reproduz com grande facilidade em cativeiro. Já procurei através de vários meios saber por que ele continua proibido enquanto os demais Hypancistrus foram liberados, e por que não há uma ação contra o envio de uma quantidade absurda desses peixes para o exterior. Mas, vejam, em nenhum momento eu disse que o IBAMA é incompetente, em nenhum momento eu disse que a maioria dos fiscais são indignos de exercer a função, nem que o órgão é um poço de burocracia que está inteiramente na mão de interesses privados. Eu nunca disse isso, heim!


Aquaflux: E qual aquário você não faria questão de ter?
Daniel Alves: Perguntinha braba, essa, heim! Deixa eu ver... Bom, um aquário que eu não teria é comunitário com espécies muito diferenciadas com relação a localidade, sabe? Por exemplo, aqueles aquários em que o aquarista coloca Colisa, Paulistinha, Corydora, Kribensis, Cascudo e Matogrosso misturados não me apetece nem um pouco. Se eu já tive um aquário assim? Claro que já. Acho que todo mundo tá teve. Se eu teria novamente? Nah...


Aquaflux: Se você fosse montar um aquário com seus filhos para eles cuidarem, qual e como seria?
Daniel Alves: Minha filha Ester, de 6 anos, já demonstra um certo interesse pelos peixes, e eu já não tenho mais que ficar monitorando a quantidade de ração que ela coloca em cada aquário. Acredito que, quando eu montar um aquário para ela, será um low-tech com Anubias, Microssoruns e Bolbitis. Para fauna, poecilídeos como Guppy ou Platy, para ela ver os filhotinhos... Já o Gabriel, de 3 meses, só fica hipnotizado olhando os peixes pra lá e pra cá.



Aquaflux: Algum pulo do gato que você possa compartilhar com os amigos do Flux nestes anos de aquarismo? Aquele macete que ou atalho que você usa e recomendaria?
Daniel Alves: Primeiro, quero alertar que tempo de aquarismo não é nada, a gente pode ter trocentos anos de hobby que, se ficar restrito ao aprendizado por conta própria, no final das contas pode ser facilmente ultrapassado por alguém que começou ontem. Eu mesmo vivo pedindo socorro à Cris, que embora tenha menos tempo no hobby do que eu, sabe muito mais. Isso porque sempre pesquisou. O pulo do gato, pra mim, é pesquisar. Ler, ler, ler até enjoar. Quando estiver enjoado, ler mais. Procurar os mais experientes, conversar, trocar ideias e opiniões. Num bate-papo informal com outro hobbysta, quem não aprende uma coisa nova, uma informação mais atualizada, uma dica sobre determinada característica de um peixe ou de um equipamento e que, no final, vai fazer a diferença? Pra mim, esse é o pulo do gato: conversar, trocar experiências, compartilhar informação.


Aquaflux: Tá, vamos a assuntos espinhosos. Sabemos que no mundo virtual temos egos bem inflados. No aquarismo não é diferente, e sempre as mesmas pessoas com suas opiniões definitivas sobre todos os assuntos do aquarismo, e ai fica a dúvida: será que o aquarismo realmente está tão ligado ao mundo virtual? Os aquaristas que importam e fazem diferença no Brasil estão online ou offline?
Daniel Alves: Sinceramente, quem faz a diferença está, em sua maioria, offline. Temos uma quantidade imensa de criadores, aquicultores e distribuidores e a maioria eu posso afirmar que não chegam nem perto do mouse. Mas são eles que movem a máquina, fazem a roda do aquarismo girar aqui no Brasil. A gente não vê, por exemplo, o grande sr. Mario Porto em fóruns, assim como não via Gastão Botelho e outros. Mas são pessoas detentoras de um conhecimento fantástico. De forma alguma estou dizendo que não há pessoas importantíssimas para o aquarismo e que se fazem presentes também no mundo virtual. Um exemplo incontestável disso é o prof. Wilson Vianna, que encabeça a luta para que o Ministério da Pesca e Aquicultura veja o aquarismo ornamental sob outro prisma.

O problema é que na internet tem muita gente, como você mesmo mencionou, de ego inflado. Vejo gente com um grande saber e uma vasta experiência que, de uma hora pra outra, muda o discurso e passa a pregar só a utilização de determinada marca em detrimento de todas as outras, só porque está ganhando um "jabá". Ou seja, o cara tem um conhecimento absurdo e em certo momento se prostitui, se vende para a marca X ou Y e decreta a sua verdade absoluta (que muitas vezes não é lá tão verdadeira assim). E ai de quem contrariar!

Gente assim não está somando em nada no hobby, esses por mim poderiam ir todos às favas!



Aquaflux:
 E falando de aquarismo offline, quais aquaristas que não estão nas comunidades você troca idéias e admira?
Daniel Alves: Sabe aquele cara que se achava um Alien por não conhecer ninguém que compartilhasse o gosto pelo mesmo hobby? Pois é, eu era assim. Não tive a experiência de conhecer ninguém até descobrir a Internet, o Orkut, os fóruns, etc. A partir daí é que eu comecei a compartilhar ideias com o pessoal, debater, ler livros além dos velhos e despencados que eu já possuía, etc.


Que não mais participem ativamente de fóruns e comunidades, tenho uma admiração muito grande por duas verdadeiras lendas, caras que são enciclopédias vivas do aquarismo: Yoshiharu Saito e Denis Cetera. Este último eu posso falar que, mais do que amigo, é um grande mestre e uma das pessoas mais humildes que eu conheço. Me ensinou muito, mas muito do que eu sei hoje sobre o hobby, e ainda me ensina. Cada vez que eu ligo pra ele ou vice-versa, a companhia telefônica agradece...

Offline mesmo, eu posso destacar o meu amigo sr. Dalto Lopes Carreiro, exemplo de vida, uma das primeiras pessoas aqui no RJ a ter Acarás-Disco e que agora, mais de 4 décadas depois, está retornando ao hobby e montando novamente uma estufa.


Aquaflux: Fale sobre o CEA, no Rio de Janeiro.
Daniel Alves: O Centro de Estudos de Aquariofilia (CEA) tem à frente o prof. Wilson Vianna. Segundo a definição do próprio, é um grupo sem fins lucrativos, que visa auxiliar os aquaristas promovendo palestras, exposições, divulgando o hobby e esclarecendo dúvidas. Promove pesquisas e estudos sobre peixes ornamentais. Já a Associação dos Aquicultores Ornamentais do Estado do Rio de Janeiro (AQUORIO) é a entidade que oficialmente representa os aquicultores ornamentais do estado do Rio de Janeiro, sejam eles lojistas, produtores, criadores, distribuidores, importadores, exportadores e pescadores de organismos aquáticos ornamentais. Possui uma cadeira no colegiado do território do Rio de Janeiro no Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA). A AQUORIO representa também os aquicultores ornamentais na Comissão de Aquicultura e Pesca da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ).

O CEA/AQUORIO é um grande avanço em benefício de todos nós, aquaristas. A entidade está sempre realizando eventos bastante interessantes, e qualquer um pode participar. Basta ficar atento às divulgações nos fóruns ou entrar em contato com alguém vinculado ao CEA. O trabalho infelizmente me priva de comparecer a todos os eventos, mas sem dúvida eu recomendo a todos, pois cada evento proporciona um aprendizado incrível.


Aquaflux: O que você acha das restrições brasileiras com relação à entrada e venda de animais importados como camarões, corais e peixes? Isto prejudica o hobby? Poderia causar danos à fauna nativa?
Daniel Alves: Esse é um assunto delicado, a meu ver. Pra mim, o IBAMA é burro. Ponto. É inaceitável que o órgão que deveria fiscalizar limite-se a proibir, sem que contudo haja pelo menos uma tentativa de pesquisar sobre a possibilidade das espécies causarem impacto sobre a fauna nativa e, em caso positivo, determinar qual seria a gravidade desse eventual impacto. Não, não. O IBAMA é assim: o que a gente não conhece, está proibido.

Aí, o que acontece? Tráfico ilegal, suborno de fiscais, etc.

Por exemplo, a importação de camarões ornamentais é proibida sob a alegação de que há o risco destes trazerem doenças que possam afetar os camarões de corte... Ora, vá se lavar! Qual seria o insano que pegaria seu Red Crystal grade SS ou seu Blue Bolt (pra quem não sabe, são variedades caríssimas do camarão Caridina cf. cantonensis, só encontradas no exterior e cobiçadas pelos entusistas tupiniquins) e jogaria num criatório de, sei lá, Camarões Gigantes da Malásia!!! Então, a meu ver, não tem do que o IBAMA ter medo. É surreal isso.

As grandes pragas exóticas vieram não por causa do aquarismo ornamental, mas por causa da cultura de corte. Vide o Lagostim-de-água-doce (Procambarus clarkii), o Caramujo-africano ou o Bagre-africano (que já está causando um prejuízo tremendo aos pescadores em vários pontos do rio Paraíba do Sul e de outros). Até mesmo o Tucunaré tornou-se um desastre ambiental ao ser introduzido em vários ecossistemas para a prática da pesca esportiva!


Aquaflux: Você cria diversas espécies de killies e camarões. O que acha dos valores praticados pelos vendedores atualmente?
Daniel Alves: Quanto aos killies, eu comecei ontem, sou um iniciante e sinceramente não tenho base para opinar. Porém, pelo que vejo o pessoal cobrando por aí, considero os preços justos. Não porque seja difícil ou trabalhoso cuidar de Killies, mas porque exige do criador tempo, estudo e dedicação. E isso deve ser valorizado.

Já quanto aos camarões, tem preço que chega a ser abusivo. É que meia dúzia de criadores que conseguiram trazer para o Brasil e reproduzir determinadas espécies e/ou variedades de camarões querem obter o retorno de seu investimento (é, eles consideram isso um negócio) multiplicado em 10.000% a cada ninhada.

Pô, se o Zé das Couves comprou um casal qualquer de camarões lááááá de Taiwan por R$ 500 cada, ele quer vender as crias aqui no Brasil a R$ 500 também. Mas, peraí... cada ninhada dá, digamos, 20 filhotes... será que se ele vendesse cada cria a um décimo desse valor que ele pagou por cada matriz, não conseguiria difundir e popularizar o hobby e, ainda assim, arrumar um tremendo lucro durante toda a vida útil das matrizes??? Isso sem contar que ele ainda ficaria com crias para selecionar novas matrizes, e por aí vai...

Mas não. Aqui no Brasil ainda prevalece, infelizmente, o individualismo, o "eu-tenho-você-não-tem". O cara prefere segurar todas as crias para que o seu querido camarãozinho-que-tem-tal-detalhe-na-carapaça continue hipervalorizado, com o preço nas alturas. Claro que isso é direito dele, mas pra mim isso não pode ser chamado de hobby. A coisa fica nesse atraso até aparecer alguém que se revolte contra essa palhaçada individualista e comece a vender as crias a preço de banana, como aconteceu há três ou quatro anos atrás com o Red Cherry, que no início era vendido por alguns criadores gananciosos a valores altíssimos e hoje é o camarão mais comum e barato que vemos por aí, depois dos Fantasmas e Malawas.


Aquaflux: Você é a favor ou contra a popularização dos camarões dulcícolas? Por quê?
Daniel Alves: Sou a favor sim. Primeiro, porque considero ridícula a justificativa para a proibição da importação destes. Segundo, porque é um hobby que encanta, ainda não conheci ninguém que tenha visto fotos dos camarões ornamentais e não tenha mostrado interesse ou pelo menos admirado estes animais. Terceiro, que quanto mais gente criando, mais portas se abrirão para o hobby. Então, considero importante e apoio totalmente a popularização dos camarões ornamentais dulcícolas.


Aquaflux: Para terminar, uma curiosidade...o que o levou a trabalhar com aquarismo?
Daniel Alves: Bom, eu trabalhava como técnico de uma empresa de telecomunicações (da qual o pessoal se queixa muito, kkk). Saí de lá e um amigo meu, o Jordan, perguntou se eu não queria assumir o setor de aquarismo de uma loja, que ele deixaria vago. Nunca sequer me imaginei trabalhando com aquarismo, mas fui lá ver e acabei gostando. Entrei, e aos poucos comecei a mudar uma coisa, mudar outra, começar a trabalhar com uma marca aqui, outra ali, fazer contatos com distribuidoras, importadoras... Posso dizer que de lá pra cá aprendi bastante sobre o hobby, assim como aprendi alguma coisa sobre os bastidores da indústria de aquarismo, do jogo de interesse das empresas e marcas e, consequentemente, de muitas inverdades que algumas das mesmas pregam. É um bom trabalho, gosto de conversar com os clientes, a galera vai lá, bate papo... Uma coisa é certa: eu aprendo um pouco com cada cliente que vai lá. Desde o expert em reefs até a criancinha que vai comprar seu primeiro Betta. Todo mundo tem algo para ensinar.

Tem um ditado que diz mais ou menos o seguinte: "Escolhe um trabalho que gostes, e não terás que trabalhar um dia sequer na vida".

Concordo, isso é a mais pura verdade.

Autor: Equipe Aquaflux (27/07/2012)
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