ENTREVISTAS AQUAFLUX
Entrevista com Denis Cetera

Aquaflux: Fale um pouco sobre você. Quem é Denis Cetera?
Denis Cetera: Um sujeito tranqüilo e alegre, até meio “palhaço” às vezes, mas acima de tudo um apaixonado, respiro aquarismo 24 horas. Os maiores e melhores amigos vieram através desse magnífico hobby, além é claro dos grandes ensinamentos e experiência que aprendi durante esses quase 30 anos de aquarismo. Não uma experiência absoluta, mas sim uma experiência dinâmica no sentido do aprendizado, porque em minha concepção, o verdadeiro aquarista estará sempre aprendendo. Então basicamente Denis Cetera é um cara tranqüilo, alegre e um eterno iniciante.

Aquaflux: Como começou no aquarismo? (Conte-nos sua trajetória).
Denis Cetera: Montei meu primeiro aquário em 1987, um marinho básico da época (corais mortos, filtro biológico, cascalho de concha moída, sem skimmer. Os amigos podem imaginar a dificuldade em manter esse sistema. Os peixes morriam em aproximadamente três meses. As informações eram muito escassas na época. Tudo mudou depois de conhecer, em 1993, João Carlos Basso, que sempre viajou o mundo buscando novas possibilidades para o aquarismo marinho nacional. Esse grande mestre fez adaptações para o uso do sistema Berlin em aquários domésticos. O sistema sempre foi usado em aquários públicos, principalmente o de Mônaco, de onde o João trouxe a ideia. Depois de aprender muito com meu mestre, nunca mais perdi peixes marinhos por descuido ou falta de informação.

Em 1990 montei meus primeiros aquários de água doce. Como estava no Rio de Janeiro nesta época, conheci um de meus maiores mestres, o grande Alex Damasio, que me ensinou muito sobre a reprodução e manutenção de dezenas de espécies, principalmente anabantídeos. E dessa inigualável experiência nasceu a grande paixão que tenho e cresce a cada dia na reprodução de espécies ornamentais. Em 1993 conheci e aprendi muito com meu saudoso e grande mestre Edson Marques. Graças a essa lenda, pude reproduzir finalmente o Acará Disco, além de várias espécies de Rasboras (Arlequim, Boraras, Microrasboras, etc.). Sem dúvida, são meus ídolos, e devo muito a esses grandes aquaristas.

Em 2008 tive a oportunidade de aprender com mais um grande mestre, Matthew Wittenrich, o fascinante mundo de reproduzir espécies marinhas. Graças a Matthew e ao MOFIB (The Marine Ornamental Fish and Invertebrate Breeders), pude conhecer novas técnicas de reprodução e principalmente fazer novos grandes amigos. A possibilidade de reproduzir espécies marinhas como o Cardinal Bangai, palhaços de varias espécies, corais e algumas espécies de nudibrânquios abriu um novo mundo em relação ao hobby.

Em 2010 montei meu primeiro plantado, mas o divisor de águas foi em 2011, quando tive a oportunidade de conhecer e aprender muito com os meus mestres do estilo Nature, André Longarço e Luca Galagarra. São grandes amigos, que tenho profundo respeito e admiração.

Atualmente tento conciliar meu trabalho com o hobby da maneira mais tranquila possível. E sempre atento a novos ensinamentos de grandes aquaristas, porque, como já colocado, a experiência deve ser dinâmica e nunca absoluta. Dessa nova geração, sempre admirei um grande aquarista, que foi o principal incentivador para que eu pudesse fazer parte da família Aquaflux. Seu nome é Daniel Alves, um grande amigo e fantástico aquarista por quem tenho grande admiração, e sem dúvida integra a minha lista de grandes referências no hobby.

Aquaflux: Com tanta experiência adquirida, você nunca pensou em trabalhar nessa área ou ter um próprio negócio?
Denis Cetera: Fui convidado algumas vezes para trabalhar nesse segmento, mas sempre me chamou a atenção um detalhe curioso. Normalmente a maioria dos profissionais que conheço, que partiram do hobby para um negócio, não possuem mais aquários em casa, e acabam perdendo um pouco o encanto do hobby. Pode ser coincidência, mas é algo que sempre penso ao analisar uma proposta como esta. De qualquer forma, futuramente penso em vencer este “receio” e trabalhar em algo do gênero.

Aquaflux: Qual o seu tipo preferido de aquário, doce ou salgado? Por que?
Denis Cetera: Pergunta difícil, mas seguramente meu aquário predileto é o doce. Porque em um aquário de água doce você interage mais com o sistema, as possibilidades de montagem são muito grandes. Discos, jumbos, camarões, ciclídeos africanos, plantado, asiáticos, ufa... tem muita coisa. É claro que o marinho tem um lugar sempre especial pra mim. As cores bizarras dos animais marinhos me encantam bastante, mas o doce ainda é a minha primeira opção. Curiosamente não consigo ter apenas um ou outro, tenho que ter os dois sistemas.

Aquaflux: Qual o seu desejo de consumo para a próxima montagem?
Denis Cetera: Manter e reproduzir o Notropis chosomus, uma espécie não muito conhecida no Brasil, e que há muitos anos tenho o desejo de manter. Acredito que finalmente este momento esta prestes a ocorrer, então muito provavelmente será um dos meus projetos neste ano.


Notropis chosomus

Aquaflux: O que acha da manutenção de Bettas em betteiras?
Denis Cetera: Lembro que na década de 80, quando comprei meus primeiros Bettas, eles eram vendidos em potes de maionese. Mas apesar do profissional da loja de especialidade afirmar que poderiam ser mantidos dessa forma, no meu íntimo aquilo não estava certo, então decidi pesquisar o que pudesse sobre a espécie, e conversando com o grande Juarez Raposo, aprendi que uma litragem mínima absoluta para um Betta macho são 25 litros. Acreditem, amigos, a diferença em manter Bettas em 5, 10, 15 e 25 litros é muito grande. Fiz o teste por vários anos. A diferença no comportamento do peixe em litragens maiores é brutal. Inclusive aprendi com o Juarez a técnica de manter vários machos em um mesmo aquário. Poderei compartilhar esta técnica em um futuro artigo com os amigos do fórum.

Então basicamente devemos combater de forma sistemática esta prática. Bettas devem ser tratados de forma digna como qualquer outro peixe, e hoje esta prática ainda é muito freqüente em nossas lojas de especialidade. Todos nós temos essa responsabilidade. Se cada um fizer sua parte, um dia poderemos mudar esta triste realidade.

Aquaflux: Dos erros que cometeu, qual a lição mais importante passaria para os novatos no hobby?
Denis Cetera: Seguramente um dos principais erros foi a falta de pesquisa no início, o que resultou em muitas perdas de vidas preciosas. Então esta é a maior lição que tive. “O aquarismo é um conjunto de acertos e muito estudo”. Seguindo esse caminho, dificilmente não teremos resultados gratificantes e prazerosos acerca do hobby.

Aquaflux: Conte-nos um pouco da experiência de mergulhar com os peixes amazônicos. Como é ter contato com peixes como o Hypancistrus zebra em seu habitat natural?
Denis Cetera: É uma sensação indescritível mergulhar e poder nadar com cardumes de Discos ou Neons na natureza. Já mergulhei em vários rios e igarapés amazônicos, mas o rio Xingu possui uma diversidade extraordinária. Um dos mais impressionantes espetáculos que tive em minha vida foi poder observar o Hypancistrus zebra em seu habitat, realmente um peixe belíssimo.

O mergulho é uma prática que sempre indico para qualquer hobbysta ou amante da natureza. Serve como uma importante inspiração, tanto em sistemas doces ou marinhos. O mergulho é uma espécie de entrega e de certa forma um batismo simbólico. Afinal estaremos no mesmo meio de nossos amados peixes.

Aquaflux: Qual sua opinião a respeito da criação em cativeiro de espécies ameaçadas, como as da região de Altamira, que será alagada com a inauguração da usina hidrelétrica de Belo Monte?
Denis Cetera: Fundamental. Apenas para que os amigos possam entender melhor, a hidroelétrica de belo monte será construída em um trecho do rio chamado volta grande do Xingu, uma área com aproximadamente 140 km com uma vasta distribuição de corredeiras e espécies endêmicas como o Hypancistrus zebra e o Panaque nigrolineatus. Nessa região existem dois períodos distintos, o período de cheia e seca.

Analisando especialmente o período de seca, a temperatura da água média nesse período é de 30°c com picos de 32°c. A principal preocupação é que, com a construção da barragem, o nível de água será sensivelmente menor no mesmo período, e muito provavelmente as temperaturas serão muito maiores. A previsão, segundo amigos pesquisadores, será de 35 °c, matando os peixes dessa região.

Então a reprodução em cativeiro pode ser a única maneira de salvar espécies endêmicas dessas regiões ameaçadas por “grandes empreendimentos” como a usina de Belo Monte.

Aquaflux: Como você vê hoje o hobby no Brasil? Quais são nossos pontos fortes e fracos em relação ao aquarismo de outros países? Em que o aquarismo brasileiro poderia melhorar?
Denis Cetera: Vejo o aquarismo brasileiro em franca expansão, e acredito que podemos chegar a médio prazo ao patamar de grandes potências do aquarismo como Japão, Estados Unidos e Alemanha. Mas é um caminho repleto de variáveis. O equilíbrio dessas variáveis é fundamental para chegarmos lá. O principal ponto forte de nosso aquarismo é a grande criatividade de nossos hobbystas, além de termos a sorte do Brasil ser o berço das mais desejadas espécies de peixes ornamentais do mundo. Os principais pontos fracos em relação a outros países é a falta de profissionalização real da maioria de nossos lojistas no mercado. Normalmente, a maioria das lojas de especialidade fora do Brasil formam aquaristas. Em nosso país, infelizmente, é comum muitas lojas não passarem as devidas informações ao iniciante. Em muitos casos os peixes são vendidos em conjunto com o aquário e equipamentos, e nós sabemos o final dessa história.

O nosso aquarismo só será grande quando tivermos profissionais treinados e apaixonados pelo que estão fazendo. Essa é uma das variáveis fundamentais a que me refiro. Além disso devemos semear o hábito da leitura e pesquisa para os iniciantes. O estudo em todas as suas formas é o melhor caminho para que nosso aquarismo possa melhorar de forma consistente.

Aquaflux: Qual espécie de peixe você gostaria de criar, mas ainda não teve oportunidade?
Denis Cetera: Essa é fácil. O Betta albimarginata é um sonho antigo, que um dia irei realizar.


Betta albimarginata

Aquaflux: Qual a sua opinião sobre alimentação exclusiva com alimentos vivos?
Denis Cetera:Acredito ser a melhor opção para a alimentação de nossos animais. Infelizmente nossas lojas não costumam em sua totalidade oferecer possibilidades freqüentes de alimentação viva. As rações tem um papel importante nessa falta de opção. Mas se eu pudesse, só ofereceria alimentos vivos ou de origem natural para os meus peixes.

A prova do que estou dizendo é a reprodução de nossos animais. A maioria esmagadora dos peixes que tive a oportunidade de reproduzir não demonstraram estímulo para a reprodução quando alimentados com rações. Diferentemente de quando alimentados com alimentos vivos.

Aquaflux: O que você considera essencial para que as pessoas comecem a tratar o aquarismo de forma séria e responsável?
Denis Cetera: O essencial em minha opinião é o conceito. Acredito que ainda estamos buscando nossa identidade aquarística. Quando esse conceito se tornar popular em nosso país, tudo ficará mais fácil. Devemos sempre nos perguntar o que significa manter um aquário em casa e a importância desse pequeno habitat em nossas vidas. Este é o primeiro passo para o aquarismo ser tratado de forma séria e responsável em nosso país. Essa é uma realidade e o conceito de muitos, mas não da maioria.

Aquaflux: Além do aquarismo, você tem outro hobby?
Denis Cetera: 100% aquarismo. Realmente, não consigo imaginar um hobby paralelo.

Aquaflux: O que você diria pra alguém que não monta um aquário marinho por medo dos preços? É possível montar um bom aquário gastando pouco?
Denis Cetera: É uma pergunta um tanto complexa. Exatamente porque o que pode ser barato pra uns, pode ser caro pra outros. De qualquer forma, é possível montar um sistema marinho gastando bem menos do que se imagina. O segredo é o planejamento. Lembrando que quanto maior o sistema, maior será a exigência logística em equipamentos para manter o aquário.

Aquaflux: Entre tantas espécies de peixes, qual é a que mais te encanta?
Denis Cetera: É uma pergunta dificílima, podem ser três? Nothobranchius rachovii, Austrolebias nigripinnis e o Betta splendens, tenho adoração por esses peixes. No caso do Betta, principalmente o selvagem ou cauda curta, os chamados Plakat. Mas se tivesse que escolher seria o Betta splendens, principalmente os selvagens.


Betta splendens selvagem

Aquaflux: Qual foi a situação mais inusitada que já viveu ou presenciou no aquarismo?
Denis Cetera: Ah sim, deixe-me ver... Vocês já assistiram aquele filme “O Resgate do Soldado Ryan”, com o Tom Hanks? Acredito que a situação mais inusitada que eu tive tenha sido “O Resgate do Mantis”.

Um grande amigo me liga as 3 da manhã pedindo ajuda. Ele havia acabado de chegar do hospital, onde teve que receber alguns pontos na mão, e uma pequena fratura devido a um acidente no aquário. O amigo em questão coletou rochas vivas em um mergulho e adicionou ao sistema (nunca façam isso). Em pouco tempo seus animais começaram a sumir de forma misteriosa. Então, ele resolveu tentar achar a resposta. A luz do aquário apagou no horário de sempre e ele, com uma lanterna, ficou procurando algo estranho.

Ele constatou que em uma toca de uma das rochas coletadas havia um Mantis Pavão (Odontodactylus scyllarus), essa espécie é uma das mais agressivas e perigosas de mantis. Esses animais possuem, a grosso modo, uma espécie de pêndulo que quando acionado tem a força de impacto de uma arma calibre 22, e podem facilmente trincar o vidro do aquário. Além disso, possuem presas afiadas como bisturis, capazes de ferir gravemente o aquarista. E infelizmente esse grande amigo descobriu isso a duras penas.


Mantis Pavão

Chegamos à casa dele, e pude analisar de forma cuidadosa a situação. Todas as espécies marinhas são muito sensíveis ao choque de densidade (água doce x água salgada). O segredo é não tentar matar o animal com algum artefato (como foi o caso). Localizei a rocha em questão e, com muito cuidado, a envolvi em uma grande rede para pegar peixes. O Mantis fica entocado mesmo em estado emerso. Adicionei água doce sem cloro na toca, e o Mantis com o choque de densidade desmaiou e deslizou para fora da rocha.

Levei um recipiente de acrílico bem rígido para acomodar o Mantis, e em cerca de 3 minutos ele acordou dando golpes no acrílico (sem sucesso). Depois, meu amigo disse que deveríamos matar o animal, e eu calmamente disse que o animal já havia sofrido demais, e o levei pra casa. O mantive como um pet fish por vários anos.

Aquaflux: O que você acha das restrições impostas pelo IBAMA sobre a importação ou venda de camarões ornamentais, killifishes, corais, etc?
Denis Cetera: É muito mais fácil proibir do que regulamentar e fiscalizar, um fato seguido a risca por nosso órgão ambiental, e de certa forma um atestado de incompetência. Infelizmente é uma realidade dura para aqueles que sonham em manter algumas espécies exóticas.

Aquaflux: Já criou killifishes?
Denis Cetera: Tenho adoração por esses peixes, principalmente anuais africanos do gênero Nothobranchius. Já mantive por muitos anos esses animais, sem dúvida uma experiência inigualável. Pretendo, futuramente, retomar minha criação.


Coletando killifishes (Rivulus sp.)

Aquaflux: Muitas espécies de peixes não existem mais na natureza, pois seus biótopos foram destruídos com o desmatamento e construções. Qual a importância dos criadores que possuem espécies consideradas extintas em seus habitats naturais?
Denis Cetera: Exatamente mantendo essas espécies vivas, para que futuras gerações possam contemplar esses animais e refletir a forma de combater fatos, como o extermínio coletivo de espécies por atividades predatórias e comerciais irresponsáveis. E aprender tanto com o lado positivo da conservação (o que devemos fazer), quanto com o lado negativo de atividades predatórias (o que não devemos fazer). Sem dúvida, é uma das vertentes mais nobres desse encantador e extraordinário hobby chamado aquariofilia.

Aquaflux: Se pudesse deixar uma frase para os iniciantes no aquarismo, qual seria?
Denis Cetera: Estude muito, estude sempre. Este é o segredo do sucesso na aquariofilia.

Aquaflux: O que você acha dos fóruns de aquarismo e a importância dos mesmos para o aquarismo?
Denis Cetera: Fundamentais, e se temos uma evolução hoje é grande parte devido a fóruns de aquarismo (responsáveis) que, de alguma forma, orientam e acolhem muitos iniciantes que se encontram perdidos, sem as devidas informações básicas e obrigatórias que todas as lojas de especialidade deveriam passar e não passam. Além disso os fóruns são importantes ferramentas para a troca de experiências e aprendizado com grandes aquaristas. O Aquaflux é o único fórum que participo no Brasil, exatamente porque seguimos uma linha muito parecida com outros fóruns no exterior que participo há muitos anos.

Fico muito agradecido de poder aprender com grandes nomes que admiro no fórum, aquaristas de excelência que nos passam informações valiosíssimas e estão sempre dispostos a ajudar. Cito por exemplo o amigo Leandro Falcão. Estou sempre lendo seus tópicos e postagens, é sempre um importante aprendizado para todos os membros do fórum. Além de outras feras que estão sempre dispostas a ajudar. Eu, como um eterno iniciante, só tenho a agradecer e me sentir um privilegiado por fazer parte dessa importante ferramenta do conhecimento.

Grande Abraço.

Autor: Equipe Aquaflux (18/04/2014)
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