ENTREVISTAS AQUAFLUX
Entrevista com Mateus Camboim


Aquaflux: Como você começou no hobby?
Mateus Camboim: Faz tanto tempo que nem me recordo direito da idade que eu tinha quando meu pai trouxe um peixinho laranja, lindo. Provavelmente uns 11 anos. Era um inocente Platy, que colocamos em um vidro de conserva daqueles bem grandes, com água limpa e cascalho no fundo. Era em uma época que a água da torneira não tinha tanto cloro como hoje. Como eu já tinha um gosto por animais, foi fácil me apaixonar por eles.

Aquaflux: Sabemos que além do aquarismo, você curte as suculentas, como conheceu, há algum cacto ou suculenta que ainda não obteve e deseja muito?
Mateus Camboim: Outra resposta que me obriga a vasculhar minha memória... Sempre tive muitas plantas, inclusive suculentas. Já cultivava essas plantinhas mesmo antes de saber o que é propriamente uma suculenta (todo vegetal capaz de armazenar água em seus tecidos). Com a internet à disposição, consegui me aprofundar mais no assunto e encontrar outras pessoas que também gostam dessas plantas (exatamente como aconteceu com os aquários). Sobre espécies que ainda não tive: são muitas. Existem mais de 3 mil catalogas. Mas tenho uma adoração por todas as espécies de Haworthia, Aloe e Crassula, devido à aparência exótica colorida.

Eu garanto: para quem gosta de plantas, mas não tem muito tempo para investir ou mesmo dinheiro, passe a cultivar suculentas e até cactos. São baratas, muito bonitas, diferentes e exigem quase nada de cuidados: muita claridade e pouca água. Só! É perfeita para estagiários e outras pessoas que trabalham e estudam...

Aquaflux: Que espécie de peixe você gostaria de criar, mas por algum motivo não conseguiu?
Mateus Camboim: Particularmente gosto de duas espécies que não posso criar: Kinguios e Acarás-Bandeira. São animais que considero encantadores, muito elegantes. Escolhendo um deles, ficaria com os Bandeiras. São majestosos, de personalidade, não são peixes exigentes e, portanto, fáceis de manter. A única coisa que me impede é o espaço e investimentos. Ambos são grandes e gregários, exigindo aquários igualmente grandes e dispendiosos.

Mas quem sabe um dia?

Aquaflux: Qual seria, na sua opinião, o "aquário dos sonhos"? Quais seriam as espécies escolhidas para compor a fauna desse aquário e por quê?
Mateus Camboim: Meu aquário dos sonhos seria um bem grande, que comportasse várias espécies de Tetras juntos e confortavelmente. Um substrato de areia fina, Valisnérias e Echinodorus, muitas folhas secas no fundo e algumas raízes, galhos e troncos... E sei de cor as espécies que gostaria de ter nesse hipotético sonho: Tetra Preto, Matogrosso, Neon Negro, Neon Chocolate, alguma espécie de Corydora compatível e um pequeno cardume de Acarás Bandeira. Isso é realmente um sonho que pretendo realizar no futuro.

Aquaflux: Na sua opinião, quais as maiores dificuldades que um aquarista enfrenta hoje em dia?
Mateus Camboim: Basicamente, aos meus olhos, são dois os principais problemas: o acesso a produtos, equipamentos e diversas espécies de peixes e outros animais ornamentais, como camarões, por exemplo; e o preço. O Brasil evolui a passos lentos, mas ainda é muito atrasado no que diz respeito aos produtos e à criação de animais. Os impostos são altíssimos e as empresas nacionais não ganham lá muito crédito. É fácil perceber quando países do exterior criam, reproduzem e desenvolvem diversas variedades de peixes em cativeiro que nós ainda insistimos em coletar diretamente da natureza.

Aquaflux: Qual a montagem que você considera o seu maior sucesso? E por quê?
Mateus Camboim: Acho que meu maior sucesso é meu Jardim Abandonado, aquário que tenho a quase dois anos (completará dois anos agora em setembro). Isso porque é a primeira vez que mantenho um mesmo aquário montado há tanto tempo: geralmente as montagens não duravam porque eu enjoava e mudava tudo. Considero um avanço e até uma “maturidade aquarística”, que é aprender a conter o impulso desenfreado de ficar trocando de aquário a toda hora.

Aquaflux: Como é ser aquarista em uma cidade pequena, que provavelmente não tem loja de aquarismo?
Mateus Camboim: Não é legal, é como se sentir um peixe fora d’água. Além de não ter lojas especializadas as pessoas te olham torto quando diz que é aquarista. Um olhar que diz “por que não tem um cão ou um gato como todo mundo”. A solução é visitar outras cidades como a capital, Porto Alegre, para frequentar lojas especializadas em aquarismo, como produtos excelentes e vendedores capacitados.

Não é de todo ruim, acabei descobrindo algumas lojinhas muito boas mesmo!

Aquaflux: Existe uma comunidade de aquaristas na região, que se ajuda ou se encontra pessoalmente?
Mateus Camboim: Existem alguns aquaristas aqui do Rio Grande do Sul que às vezes promovem reuniões e tal. Mas nunca fui a nenhuma delas, por diversos motivos. Além do fato de não ser um bom aquarista de verdade (me considero mediano), não bebo nem como carne vermelha, e esses encontros são regados a “ceva” gelada e churrasco. Então o que faria lá? Hehehe, nem pareço gaúcho, não?

Aquaflux: Como você adquire os peixes e plantas? Se for pelo Correio, qual sua opinião a respeito das restrições do envio de seres vivos?
Mateus Camboim: Costumo comprar pessoalmente nas lojas que frequento, mas quando se trata de espécies mais difíceis ou mesmo pouco comuns por aqui, recorro às compras pela internet, com entrega pelo correios. Não serei hipócrita de condenar compras pelos correios se eu o faço, mas existem meios e recursos legais para o transporte desses seres vivos (animais e plantas).

É muito fácil alguém falar “é errado, é feio, não pode!” quando essas pessoas moram em grandes centros urbanos onde o aquarismo é relativamente desenvolvido e tem acesso a quase tudo que pessoas de interior, como eu, não possuem (bem, Esteio é considerado região metropolitana de Porto Alegre, mas é um finzinho de mundo). Se essas pessoas só tivessem ao seu redor Kinguios e Platys, será que pensariam assim? Não desmerecendo essas belezinhas, mas apenas para retratar muitas lojinhas por aí.

Aquaflux: Mateus, como o curso de Biologia afeta sua relação com o aquarismo?
Mateus Camboim: Ele me aproxima ainda mais desse meu hobby! Aprendi algumas teorias que eu já conhecia na prática (que todo o aquarista conhece na realidade) e consegui visualizar na prática conceitos aprendidos. Posso me arriscar a afirmar que todo aquarista interessado em manter um ambiente saudável no aquário é um pouco ecologista por dentro. Observar e aprender um pouco sobre as interações que ocorrem dentro do aquário é muito recompensador. Equilíbrio biológico, estabilidade, alimentação e ciclagem de nutrientes, a nadadeira adiposa, a necessidade de uma água mais ou menos oxigenada, são muitas as coisas aprendidas!

Aquaflux: Mateus, você concorda que um aquarista iniciante deve ter um conhecimento básico de “biologia para aquários" antes de montá-lo? Por quê?
Mateus Camboim: Com certeza, isso deveria ser ensinado a todo aquarista de primeira viagem e empolgado com todas as descobertas que esse hobby trás consigo! Acredito nisso porque isso “abre a cabeça” da pessoa e a faz realmente compreender muitas das “leis”, “regras” ou “conselhos aquarísticos” por aí. Se a pessoa aprende de verdade o que é o ciclo do nitrogênio; como a amônia, o nitrito e o nitrato são tóxicos; a importância de diversas cepas de bactérias para a qualidade da água; a importância da reposição de minerais, da oxigenação e etc.; ela entende porque não deve superpopular um aquário, porque não deve dar comida demais, porque deve ter investir em um bom sistema de filtragem, entre outras coisas.

Entender o porquê das coisas é muito mais útil do que apenas obedecer às normas. Isso minimiza a possibilidade de erros e, obviamente, maximiza as chances de sucesso na montagem de um aquário, o que aumenta as chances da pessoa efetivamente se tornar um bom aquarista.

Aquaflux: Aqui no fórum você aprendeu algo que a Faculdade de Biologia não se aprofundou ou comentou? Se positivo, o que aprendeu?
Mateus Camboim: Bem, antes de tudo, aprendi a como manter um aquário, coisa que a faculdade não me ensinou e nem ensinará, rs. São várias as coisas que o fórum me proporcionou. Por exemplo, a observação prática do ciclo do nitrogênio; a relação e defesa de território; a organização que ocorre em um cardume. A reprodução de peixes, tanto ovíparos quanto ovovivíparos. Isso praticamente universidade nenhuma nos ensina.

Uma coisa que não posso deixar de comentar é a familiaridade com nomes científicos que o fórum me inseriu. Quando comecei a estudar, junto com vários outros colegas calouros, não foi difícil pronunciar os complexos nomes científicos, graças à prática que adquiri por aqui. Foi um orgulho que não pude deixar de mostrar! Nenhum deles sabia pronunciar ou sequer escrever Paracheirodon axelrodi, Hyphessobrycon herbertaxelrodi ou mesmo Trichogaster trichopterus!

Aquaflux: Você sabe todos os nomes científicos de peixes e plantas como o Daniel Alves? rsrs
Mateus Camboim: Longe disso. Infelizmente meu conhecimento acerca de nomes científicos é relativamente baixo! Só sei os das espécies que mantenho e das que admiro, o resto... Mas quem sabe um dia eu o alcance?

Aquaflux: Sabemos que você curte os aquários matagais, nunca pensou em partir para os plantados high tech?
Mateus Camboim: Nunca! Aquários high-tech exigem tempo, dinheiro e paciência, coisas que não tenho muito. Os equipamentos são caríssimos, os produtos como fertilizantes e derivados são ainda mais salgados. Exigem muito. Bem, talvez para muitos seja um exagero, mas para um estagiário em microbiologia, classe C, se eu mantiver um aquário high tech não teria dinheiro nem para o ônibus no outro dia... Acreditem: estagiários da biologia não ganham bem, nem os do estado, como eu.

Mas não vou chorar mais, quem sabe no futuro, como meu incrível salário como professor eu mantenha um? Até lá, fico com meus matagais, com a metade do preço e o dobro da diversão!

Aquaflux: Já pensou em largar tudo? Tipo desfazer de tudo e parar com o hobby? Por quê?
Mateus Camboim: Já pensei sim, algumas vezes. Por vários motivos. Não é fácil trabalhar o dia todo, estudar a noite, fazer trabalhos diversos, pesquisas, ter que visitar escolas e então, no único sábado ou domingo livre ter que fazer a manutenção do aquário. Contrariando muitos aquarista, eu detesto fazer manutenção. Amo alimentar meus peixes, adoro ficar observando o aquário, mas não gosto de fazer TPAs, limpar o filtro, raspar as algas dos vidros... Faço tudo isso, mas não com muita alegria e muito menos com um sorriso no rosto.

Quando aconteceram desastres (como o episódio com o buffer) tive vontade de desistir. Ou quando descobri outros hobbys, mas fáceis, baratos e igualmente prazerosos... De qualquer maneira, continuo com meus peixinhos!

Aquaflux:  Mateus, terminando a faculdade de biologia, pretende fazer algum curso de extensão ou pretende fazer outra faculdade?
Mateus Camboim: Ah, muitas dúvidas na minha mente! Quando fiz o ENEM e consequente ProUni, concorri a bolsas integrais para dois cursos: ciências biológicas e, em segundo lugar, psicologia. Por isso não sei dizer se cursarei psicologia mesmo ou farei pós-graduações na área da educação, que é o meu foco (sempre, desde pequeno mesmo, quis ser professor).

Para não dar uma resposta assim tão vaga, provavelmente farei algumas especialização na área da educação.

Aquaflux: Você gosta muito de escrever, em seus planos futuros inclui algum(s) livro(s) sobre seus hobbys?
Mateus Camboim: Infelizmente não! Não tenho o conhecimento suficiente (e muito menos a pretensão) de escrever um livro sobre algo assim. Mas é verdade que gosto muito de escrever, tenho alguns contos publicados e não perco a oportunidade de falar sobre alguma coisa que me interesse. Herança da minha mãe, que também ama escrever.

Aquaflux: No reservado do Aquaflux, seu maior sonho é ter um peixinho com seu nome, pois todo biólogo gosta de seu nome na história? Se possível, como seria?
Mateus Camboim: Olha, nunca pensei muito nisso, já que meu nome acaba sendo muito lembrado na faculdade, pois são poucos os Camboim por aqui. De qualquer maneira, se eu fosse batizar algum peixinho, gostaria que fosse um pequeno Tetrinha, colorido, resistente e fácil e cuidar, para que se tornasse bem popular... Que tal Hyphessobrycon camboiniensis? Soa legítimo, rs!

Aquaflux: Quais suas maiores alegrias e decepções em todos estes anos de aquarismo?
Mateus Camboim: Para falar a verdade, as maiores alegrias estão fora dos aquários! O que melhor eu ganhei foram muitos amigos! Pessoas especiais que, mesmo estando longe, sempre me apoiaram, me deram espaço, acreditaram em mim. Agora olhando dentro d’água, as maiores alegrias foram todas as vezes em que meu peixes se reproduziram espontaneamente, como os Foguinhos, por exemplo.

As maiores decepções foram os desastres que ocorreram (e que são relativamente comuns pelo menos uma vez na vida de qualquer aquarista). De todas elas, aquelas em que eu não pude fazer nada foram de longe as piores. É muito triste você cuidar de um peixinho, alimentá-lo e, do nada, vê-lo morrer... Uma incrível sensação de impotência.

Mas considero-me sortudo, pois na balança das coisas, típico comportamento de libriano, recebi desse hobby maravilhoso muito mais coisas boas do que ruins, e por isso vale à pena continuar!

Aquaflux: Bate-pronto: Um livro, um filme e uma música. Por quê?
Mateus Camboim: Livro: A Coisa, de Stephen King. Porque é uma história que retrata muito bem os sentimentos humanos em sua totalidade, desde os mais nobres até os mais mesquinhos (que todos sentimos mas jamais admitiremos). Ou seja, em muitos momentos nos identificamos de forma inesperada com o que os personagens estão pensando ou sentindo.

Filme: O Labirinto do Fauno, de Guillermo del Toro. Porque é um filme que mostra os horrores de uma guerra misturados à inocência e aos sonhos de uma criança. É bonito ao mesmo tempo que muito duro, cruel. É uma mistura que eu valorizo.

Música: One of Us, de Joan Osborne. Porque, pelo menos de acordo com minha interpretação pessoal, é uma música que nos lembra de algo que a maioria das pessoas se esquecem: aceitando ou não, somo todos iguais e especiais, cada um à sua maneira.

Autor: Equipe Aquaflux (02/08/2013)
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