ENTREVISTAS AQUAFLUX
Entrevista com Wilson Vianna

O fórum Aquaflux valoriza e muito as referências nacionais relacionadas ao Aquarismo e Aquapaisagismo, por isso fomos atrás de uma entrevista exclusiva com o Sr. Wilson Vianna um dos pioneiros no aquarismo nacional, confira!

Aquaflux: Sem sombra de dúvida, seu nome é sinônimo de pioneirismo e amor ao hobby em nosso país.
Wilson Vianna: Muito obrigado pelo elogio.

Aquaflux: Qual a sua formação e a que atividade se dedica atualmente?
Wilson Vianna: Sou biólogo, professor de biologia, pós-graduado em Biologia Marinha e Administrador de Empresas, aposentado pela Petrobrás. Atualmente sou Gestor do Centro de Estudos de Aquariofilia- CEA; membro do Grupo de Trabalho de Aqüicultura do Ministério da Pesca e Aqüicultura; membro do grupo de Pesquisa “AQUISUAM” da UNISUAM e Titular da Piscicultura Vianna, na qual trabalhamos com aprimoramento genético de Bettas das variedades halfmoon, plakats e dragons, desenvolvemos uma variedade de Acará Albina full koi e uma variedade de bandeira negra com peito escama de pérola e também produzimos Tetra Imperador, Mato Grosso de Véu, corydoras melinii e corydoras aeneus albina.

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Com o prefeito Zito e o piscicultor Lacerda defendendo interesse dos aquicultores de Capivari.

Aquaflux: Quando foi seu primeiro contato com o aquarismo e quem te influenciou a entrar no hobby?
Wilson Vianna: Costumo dizer que o primeiro peixe a gente nunca esquece. Pois é, desde criança coletava barrigudinhos nos riachos e os colocava em vidros. Um belo dia eu passeava por uma feira livre quando encontrei um rapaz vendendo peixinhos coloridos. Era uma cruz de madeira, sobre um caixote e vários saquinhos pendurados; fiquei fascinado e não queria mais sair de perto do vendedor; acreditem foi amor à primeira vista; ou seja, ao primeiro peixe e enquanto a minha tia que me acompanhava não comprou um peixinho eu não sosseguei. Era um Barbus Sumatrano, que por falta de conhecimentos durou pouquíssimos dias, nesta ocasião es tinha aproximadamente oito anos de idade.

Aquaflux: Nos fale um pouco sobre com era o aquarismo na época que o senhor iniciou.
Wilson Vianna: Bom, basicamente tínhamos o aquário de cantoneira, vedado com massa de vidraceiro e o aquário de vidro redondo que chamávamos de bujão; quanto aos equipamentos tínhamos o barulhento compressor de ar, a mangueirinha plástica, o registro de saída de metal, areia de praia e areia colorida, o puçá e ração da marca Vitormônio. Os peixinhos eram sempre os mesmos: platy, espada, acará bandeira nativo, algumas espécies de Barbus, Guppy, Tricogaster, Beijador, Acará disco nativo que aparecia uma vez ou outra e aqueles que coletávamos nos riachos, barrigudinhos, caraúna, bagrinhos, engraçadinho, entre outros.

Os conhecimentos eram quase nulos; revistas e livros especializados eram de difícil acesso e só conseguíamos quando vinham do exterior. A primeira informação sobre aquariofilia veio do livro “O Aquário de Ornamento”, de autoria do Grande mestre Professor Gastão Botelho, publicado na década de “60” que foi como uma luz na escuridão e abriu caminho para toda a aquariofilia que temos hoje.

Posteriormente, ainda na década de 60, foi fundada a ACAPI – Associação Carioca de Aquarismo Piscicultura e Ictiologia, que ministrava cursos e palestra, editou um boletim, posteriormente uma revista e realizou as primeiras exposições aqui no RJ. Essa entidade foi muito importante para o desenvolvimento da aquariofilia.[/b]

Aquaflux: Qual foi sua maior realização na sua trajetória pelo aquarismo? E o que mudaria se fosse possível?
Wilson Vianna: A minha maior realização está sendo o CEA – Centro de Estudos de Aquariofilia, uma entidade que cada vez mais se impõem no sentido de apoio técnico e científico aos aquicultores ornamentais. O CEA possui um grupo de consultores formado por profissionais habilitados, entre eles doutores, cientistas, médicos veterinários, biólogos, zootecnistas, geólogos, lojistas, atacadistas, criadores de peixes ornamentais, hobistas, etc; trabalha com suporte Científico de várias Universidades e vem formando vários aquariofilistas e criadores. O CEA está se adequando à legislação para, ainda neste semestre, se tornar à entidade oficial representativa da Aqüicultura do Rio de Janeiro junto ao Ministério da Pesca e Aqüicultura.

Acho que não mudaria nada do que fiz no segmento da aquariofilia, pois foi sempre realizado com boa intenção e no sentido de melhoria do nosso hobby..

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CEA Homenagea o aquariofilista Rubens Rangel

Aquaflux: Que espécies de peixe e tipos de aquários lhe fascinam mais e por que?
Wilson Vianna: Todos as espécies de peixes e tipos de aquários me interessam, infelizmente não posso ter todos. Na realidade, o que me fascina são os desafios: o desafio de conseguir a reprodução de uma espécie que ninguém tenha conseguido, fazer o registro e documentar para que outros possam fazê-lo, como é o caso da Rasbora heteromorpha e o Tetra fantasma negro [Hyphessobrycon megalopterus], cujos primeiros registros de reprodução em cativeiro, no Brasil, foram feitos por mim; o desafio de melhorar geneticamente uma espécie partindo de exemplares medíocres e produzindo animais de alta linhagem; o desafio de obter novos conhecimentos e querer saber cada vez mais. Atualmente dedico duas horas por dia para estudo de genética, estudo os postulados de Ernest Heckel, Thomas Morgan e Griffiths.

Aquaflux: Quais são os maiores mitos e informações equivocadas que já ouviu durante sua experiência com o aquarismo?
Wilson Vianna: O maior mito é que aquário dentro de casa dá azar, pois o que acontece é exatamente o contrário, o aquário além de ser uma fonte energia positiva e de terapia é uma maneira de unir a família em seu entorno, propiciando o diálogo e a relação interpessoal, trazendo muita harmonia ao ambiente.

A informação mais equivocada é que folha de amendoeira é milagrosa e antibiótico...Vou explicar: Sou requisitado por vários criadores, principalmente de betta, que estão com seus peixes doentes e muitos deles utilizam folhas de amendoeira; então onde está o milagre?... Falar que é antibiótico é um verdadeiro absurdo, pois, para a criação de um novo antibiótico as industrias farmacêuticas investem milhões de dólares e anos de pesquisa com cientistas renomados, então seria excelente se os antibióticos, simplesmente começassem a cair das árvores. Cabe ressaltar, ainda, que as maiores pisciculturas do Brasil, que estão radicadas no Rio de Janeiro, São Paulo, Fortaleza e Paraná, não utilizam esta “folha milagrosa”. Nestas pisciculturas há pessoal devidamente habilitado, que estão sempre pesquisando maneiras de melhorar a produção e diminuir custos e algumas trazem até tecnologia do exterior. Se às folhas de amendoeira realmente propiciasse algum beneficio à criação, ou inibisse enfermidades, com certeza eles estariam utilizando.

Aquaflux: Qual seria sua definição de aquarismo?
Wilson Vianna: É o hobby de colecionar peixinhos em aquários, oferecendo a oportunidade de ter um pedacinho da natureza dentro de casa, de observar o dia a dia de um mini ecossistema, onde é possível acompanhar o nascimento, crescimento, desavenças, namoro, acasalamento e morte. È um hobby que incentiva a pesquisa por conhecimentos relativos a biologia, eletricidade, botânica, zoologia, química, entre outros. Para as crianças, pode ser o primeiro contato com os pequenos animais propiciando a admiração pelos seres vivos inibindo o espírito predatório e para os jovens é uma maneira de preencher seu tempo vago com uma fonte de cultura, podendo, em muitas ocasiões, evitar as más companhias tão prejudiciais em nossos tempos. Para os adultos uma terapia relaxante e uma fonte para aquisição de novas amizades.

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Conferência Nacional de Aquicultura Dra. Neide Cléa (MAP), Prof. Wilson Vianna(CEA), Dr. Manuel Vasquez (UENF) e Alvaro Junior(pisc. Cristal)

Aquaflux: Há uma corrente hoje em dia que afirma que nosso hobby é prejudicial à natureza e ao meio ambiente. Como, por exemplo, a coleta de peixes selvagens. O que o senhor acha disso?
Wilson Vianna: Quanto a esta pergunta posso responder com muita propriedade, pois faço parte de um grupo de trabalho, que atua em parceria com o Ministério da Pesca e Aqüicultura, no estudo dessa problemática:

- Quanto à degradação do meio ambiente, na realidade o que as autoridades questionam é o tratamento dos efluentes provenientes das pisciculturas e de atacadistas de peixes importados, entre outros, que estão sendo descartados na natureza sem o devido tratamento, fato que temos que concordar que está errado, pois este procedimento pode acarretar a introdução de organismos patogênicos exóticos que poderão prejudicar as espécies nativas. O IBAMA editou legislação para disciplinar este problema. Atualmente a responsabilidade pela aqüicultura está passando para o Ministério da Pesca e Aqüicultura, que vem trabalhando no sentido de fazer cumprir estas normas sem muitos traumas para os envolvidos uma vez que o seu cumprimento implica em altos custos.

Quanto à coleta de peixes nativos - O que vem ocorrendo, já há muitos anos, é que várias empresas, geralmente de propriedade de estrangeiros, vêm explorando os nossos peixes nativos e enviando para o exterior, aos milhares e ou aos milhões, até que eles se esgotem, como já aconteceu com varias espécies. Um exemplo bastante conhecido é o do Hyphessobrycon flammeus, conhecido como engraçadinho, animal endêmico do estado do Rio de Janeiro que em função da coleta sem controle hoje se encontra praticamente extinto. Existe uma resolução do IBAMA que estabelece cotas para a explotação das espécies mais ameaçadas de extinção e que penaliza todos aqueles que não a cumprirem, assim, por exemplo, se um de nós estiver coletando alguma das espécies proibidas por lei poderá ser multado e até preso. Infelizmente, por causa da má fé e desonestidade de alguns, todos teremos que pagar esta conta. Representantes do Ministério da Pesca e Aqüicultura, já foram informados a respeito desta delicadíssima questão e se posicionaram no sentido de rediscutirem a legislação pertinente.

Aquaflux: Qual é o erro mais comum do aquarista novato e qual o conselho o senhor daria aos iniciantes?
Wilson Vianna: O erro mais comum dos aquariofilistas é primeiro comprar o aquário e os peixes e depois querer aprender como tratá-los. Para os iniciantes sugiro inicialmente comprar um livro, manual ou pesquisar na internet, existe muitos sites e fórum com informações verdadeiras, como é o caso do Aquaflux, onde o iniciante pode encontrar tudo que precisa para se iniciar no hobby

Aquaflux: Como o senhor vê o aquarismo nacional em relação ao resto do mundo?
Wilson Vianna: Se considerarmos que começamos depois que muitos países do primeiro mundo e que tivemos durante muito tempo pouco acesso à tecnologia importada, considero que estamos em equilíbrio e crescendo. Podemos observar alguns brasileiros que vem destacando no segmento dos plantados e dos marinhos, com tendência à evolução progressiva. O problema é que a industria brasileira investe muito pouco em equipamento de ponta, sendo necessário trabalharmos com importados que se tornam caros em função das altas taxas de importação, sendo enviáveis para muitos aquariofilistas.

Quanto à produção de peixes de qualidade considero que estamos atrasados, pois, os números de exportação de peixes criados em cativeiro são praticamente nulos, nos destacamos somente em relação a peixes capturados, a maioria da bacia do alto Rio Negro, cuja exportação atinge mais de quarenta milhões de exemplares por ano.

Quanto aos criadores são pouquíssimos aqueles que investem em trabalhos de melhoramento genética e, infelizmente, os que estão tentando se baseiam em tradução de trabalhos editados por criadores do exterior, que é claro não são idiotas a ponto de entregarem os seus segredos, assim ficam naquela mesmice incapazes de produzir novas variedades como é feito no exterior. Quando a comunidade científica interagir com o segmento de aqüicultura ornamental tenho certeza que teremos o nosso lugar na aquariofilia mundial, pois temos condições de água e de clima bastante propícios à produção de peixes ornamentais e somos brasileiros. Esta situação não está muito longe de ocorrer pois algumas Universidades já estão trabalhando com esta perspectiva. O MPA também tem consciência do potencial humano, climático e hídrico e a importância das nossas espécies nativas e em breve vai estar viabilizando empreendimentos para o crescimento desta atividade.

Aquaflux: Quais as mudanças positivas e negativas ocorreram no aquarismo nos últimos anos?
Wilson Vianna: Entendo como mudanças positivas o acesso ao conhecimento, a uma infinidade de espécies exóticas e a equipamentos importados de ultima geração que trouxeram maiores facilidades para praticar o nosso hobby. Não vejo mudanças negativas e sim, mudanças nos parâmetros comportamentais da humanidade as quais precisamos nos adaptar e atualizarmo-nos se quisermos acompanhar o progresso e os novos tempos.

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Com índios e cablocos em pesquisa no alto Rio Negro

Aquaflux: O senhor acha que o governo deveria implemetar nocões básicas de aquarismo nas escolas como parte da educação para as crianças? Qual sua opinião?
Wilson Vianna: Sim, com certeza, pois a aquariofilia além de ser um hobby que pode ser trabalhado junto às aulas de Ciências e Biologia, pode também ser explorado como uma atividade de subsistência. Em muitos países, principalmente do continente asiático, a aqüicultura é trabalhada como disciplina curricular e também cursos de Universidade. Nas propostas a serem implementadas pelo CEA está incluso o projeto “UM Aquário em Cada Escola” , que consiste em fazer doação de um aquário para escolas de comunidades carentes e fazer o acompanhamento, junto aos professores de Ciências e aos alunos até que eles estejam aptos a assumirem. Todos os segmentos estão convidados a trabalharem conosco nesta atividade.

Aquaflux: Durante todos esses anos de aquarismo, o senhor já deve ter visto e ouvido, muita coisa curiosa e interessante sobre o assunto. Pode nos contar alguma?
Wilson Vianna: Já vi muitos casos interessantes, mas tem um excepcional que nós chamamos de “ o peixe que nocauteou o aquarista” Aconteceu na década de 70, meu amigo Rubens Ramalho Rangel, era responsável pela manutenção de um grande aquário no interior de um restaurante, no centro da cidade do Rio de Janeiro, Neste aquário havia vários peixes ornamentais e entre eles um enorme Barbus schwanenfeldil [Barbodes schwanenfeldi]. Um dia quando ele estava debruçado sobre o aquário para trocar algumas plantas o barbus se assustou e saltou para fora – com muita força - atingindo a parte superior do nariz do Rubens que caiu para traz desmaiado. O fato foi bastante comentado e ficou comentado como “o peixe que nocauteou o aquarista”[

Aquaflux: O que falta no comercio nacional para colaborar mais com o nosso hobby?
Wilson Vianna: Falta conhecimento e capacitação dos lojistas que em sua maioria não entendem nada do hobby e vendem peixes como se fossem bananas ou laranjas. O pior é que passam informações totalmente erradas que não ajudam em nada aos iniciantes fazendo, muitas vezes, desistirem do hobby. Cabe ressaltar que existe alguns lojistas que fazem um trabalho excepcional de esclarecimento, acompanhamento aos aquariofilistas, infelizmente eles são uma minoria.

Aquaflux: O senhor acha que os fóruns, blogs e sites ajudam na conscientização e na divulgação do aquarismo?
Wilson Vianna: Com certeza, ajudam muitíssimo, permitindo a interação entre aquariofilistas de todas as partes do Brasil e até do mundo, propiciando a divulgação à troca de informação, a troca de material genético, etc. Esses instrumentos são canais abertos, diários, 24 horas por dia de divulgação da aquariofilia.

Aquaflux: Na sua opinião, qual será o futuro do aquarismo?
Wilson Vianna: A aquariofilia vai continuar crescendo e cada vez mais teremos acesso a novas espécies, novas variedades, novos equipamentos. Os plantados vão ganhar espaço progressivamente e os marinhos vão se tornar mais viáveis quando forem desenvolvidos equipamentos com preços mais acessíveis e a legislação pertinente permitir maior acesso a varias espécies que hoje não são permitidas.[/b]

Aquaflux: E por fim um “bate-pronto”:
Um time? - Vasco da Gama
Outro Hobby? - musica já fui guitarrista e ainda gosto muito de rock progressivo.
Um aquarista? - Gastão Botelho O PRECURSOR DA AQUARIOFILIA NO BRASIL
Um peixe? O acará disco, o betta, o guppy, etc
Uma cidade? Rio de Janeiro

Para terminar, quero agradecer a toda a equipe por esta oportunidade e parabenizar pela seriedade com a qual vocês estão administrando o fórum Aquaflux.

Abraço forte

Wilson Vianna

Autor: Equipe Aquaflux (10/02/2010)
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